terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Eu gosto e ponto final


Talvez seja uma cisma minha (mais uma!), mas tenho a sensação que muitos cabo-verdianos, portugueses descendentes de cabo-verdianos e luso-cabo-verdianos, muitas das vezes, sentem (ou ainda sentem) a necessidade de olhar para todos os lados antes de declarar “gostar” de Portugal
Eu gosto de Portugal e não tenho problemas nenhuns em assumir este sentimento. Sempre que volto “às minhas cidades”, Porto e Lisboa, sinto que de uma forma ou outra pertenço àquele país.
Eu tenho a sensação de que as pessoas na minha situação, se calhar, deveriam ter mais cuidado antes de dizer (escrever) que gostam de Portugal. A mim parece que as pessoas na minha condição sempre que façam esta afirmação devem concluir a frase com outras declarações que começam com “mas” e “apesar”… “Mas eu gosto muito da ilha do Maio, de Cabo Verde” … “Apesar de tudo que passei aí.”  
Eu gosto de Portugal e ponto final. Não me apetece justificar nem para os cabo-verdianos que vejam isso como uma afronta e por isso a necessidade do “mas” e do “apesar”. Muito menos me apetece justificar para aqueles portugueses que acham que no mínimo sou uma atrevida por tomar o país deles como meu. Gosto porque gosto e ponto final!


Paula Ribeiro

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Um krer ka tchiga…





Npodia staba xintad ta lê um livro
Npodia sta oiaba um filme
Npodia staba detad riba nha cama
Kusa fazê ka faltam
Npodia t staba xintad sem fazé nada, ma scodji sta junto ku bo, passa nha temp junto ku bo
Ma i si bu ka kre
Um kre ka tchiga,abo bu tem ku kre també
Nha krer pode ser tcheu, ka poc, ma si bu ka krem…
Npodé t insisti, bu pode t fazé um sacrifício y desperdiça bu temp junto ku mi, ma ced ou tarde bu ta bai e bu ka ta bem mas
Ta doé go ma djam percebe pamode um krer ka tchiga, so nha krer i ka suficiente.


Paula Ribeiro 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Aioi!!



Oia, mudjer ka ta ri assim!
Abo fot rost fitchad?
Bu sta bom ingrata, bu ka sta oiad mas!
Djal fika bom fastenta, kre al pensa pamode nka tem mas nada fazé na vida!
Fica só trabadje, kre bu sta vira rico…
Abo prope bu trabadje i sabe, ta sai di trabadje ced assim?
Nha camada dja tem um tempo al ka ligam…
Dja nhos sabé pamode amim nka tem tempo.
N´oiau online ma nem bu ka da fala… nem pa respondem nha “oi”…
Al bem t al bai ami nem ka flam…
Vira si al parce li, nem ka ta spera convidad…


Paula Ribeiro 

domingo, 16 de julho de 2017

Luto



Di um forma geral nta defendé manisfestasan cultural, desd kul ka ta “feri” ninguém, ma por motivos pessoais ntem stad ta refleti tcheu sobre luto, principalment pa peso e significad ku inda al tem na cultura cabo-verdiana.

Será k kel kestan de cor de ropa  ka ta fazé dor ser mas pesado inda? Um pessoa enluta ta abri maleta pa panha ropa pal besti al tem ku decidi sil ta bisti preto por “obrigasan” ou vermelho ku pode fazel sinti como sil traí algum kusa ou algum alguém (afinal besti vermelho ta bai contra kel kul ensinado desd de sempre). Tudo dia na momento di besti, para além lembra si perda al tem ku debaté ku si consiciência e as ves ku si questan financeira també (case al ka tené ropa poi luto).

Na alguns casos, pessoas ku luto ka podé obi música, canta e badja nem se fala. Em principio, maioria de pessoas ka ta xinti nem vontade pa comé conta mais pa badja, mas si música ta alegra alguém pamode kum pessoa k caba de perdé um alguém muto importante na si vida  e sta sofré profundamente ka podé busca console na música? Ka podé procura si forma de expresa luto?

Paula Ribeiro

terça-feira, 11 de julho de 2017

Escravos do Sistema III

Tudo lhes parecia diferente do que tinha sido dito. Supostamente foram para um país que tinha acabado de sofrer um grande desastre natural e que precisava de pessoas para ajudar na sua reconstrução, mas não havia sinal de desastre nem de caos. Nenhum deles percebia a língua local, mas ficaram com a sensação de que algures viram as pessoas em festa, mas foi-lhes dito que era uma homenagem às vítimas da catástrofe e agora chegaram a uma aldeia horrenda e degradada que ao parece foi construída em forma de um labirinto em cima das montanhas. Dedução engraçada, mas Juan não quis preocupar o irmão e mostrou-se entusiasmado. Do cimo da montanha dava para ver um sítio que parecia bem desenvolvido pelos números de aranha-céus que era possível ver. Mas uma coisa que dois irmãos sempre foram bons, embora o Juan muito mais, era orientação e ficaram com noção que era bastante longe. Por outro lado, a casa do Sr. Múltiplas era completamente diferente da realidade da aldeia, havia até um jacuzzi telecomandado mesmo à frente da cama. Os dois acreditaram que pelo menos poderiam ter uma vida digna ali.
No segundo dia fizeram umas visitas estranhas. De acordo com a boa orientação deles parecia que iam dar sempre ao mesmo lugar, mas alguma coisa mudava, a fachada talvez. Pagavam para entrar nos museus supostamente diferentes e com coisas que não faziam sentido nem mesmo para um museu. Não percebia a moeda local, mas sabiam que já estavam a gastar muito do pouco dinheiro que ainda tinha. Finalmente hora de comer. O Javier já estava a começar a ficar chateado de tanta fome e tanta visita sem sentido. Uma vez mais descontraídos sentados numa mesa que parecia ter areias nos frascos de temperos. Os dois não sabiam o que era e mesmo sem noção pediram ao Sr. Múltiplas para provar e como ambos estavam a rir por se acharem uns estúpidos depois de ambos pensarem que aquilo era areia. Onde já se viu areia junto do sal e azeite ou seja lá o que tinha os frascos. Entretanto já estava alguém atrás preparado para avançar só por ter achado que os dois irmãos tinham descoberto o Esquema e fizeram o Boss comer areia. Vamanos disse um dos irmãos.
-Vocês falam português? Explicaria, caso houvesse a oportunidade, que era para ser espanhol. Não falavam a língua local e por isso vagamente diziam palavras de outras línguas estrageiras que conheciam, mas não houve tempo para explicações. Um Senhor já muito velho, parecia ter pelo menos cem anos, não, certamente cento e cinquenta, começou a falar como se tivesse pressa em terminar antes que fosse interrompido. Não sabem como é tão ouvir alguém falar a minha língua. Desde que vim pra cá nunca mais falei a minha língua. O senhor que me trouxe até aqui percebia um pouco, mas morreu pouco tempo depois e fiquei sozinho, nunca mais consegui voltar. Sabem, perdi o meu passaporte e pedi um daqui. Fez uma ligeira pausa para respirar. Até me deram, tive que pagar muito dinheiro, mas no dia em deveria ter o levantado o meu filho precisou ir ao hospital, disse isso enquanto apontava com cabeça para o individuo que trazia consigo sentado numa cadeira de rodas. Depois gastei todo o dinheiro que me restava a tentar ver se me poderiam mandar ou algo assim, mas nada, e por isso nunca mais consegui voltar. Juan olhou para o jovem que estava na cadeira de rodas que o velho empurrava, tentou procurar alguma semelhança entre o jovem bem musculado e cheiroso que estava sentado na cadeira de rodas com a múmia-viva que falava à frente deles. Naquele momento percebeu que algo não batia certo. Aliás, que nada batia certo naquele lugar. A primeira intuição foi procurar o passaporte mas Javier segurou-lhe os braços antes que pudesse o fazer. O irmão mais novo já tinha percebido que era mesmo areia à mesa e também percebeu que homem armado só não avançou até eles porque o Sr. Múltiplas tinha feito um sinal disfarçadamente. Aproveitou a entrada do múmia-viva em cena para descobrir que nem ele nem o irmão tinham passaportes. Rezou que o irmão com fama de explosivo não desse por isso, por enquanto. Juan por seu lado confirmou com o toque do irmão que não valia a pena procurar, consciencializando que tinha à sua frente a maior luta que tinha enfrentado e que daquela vez perder a cabeça significaria por fim a vida de os dois.  

Paula Ribeiro

domingo, 2 de julho de 2017

E as minhas perguntas, “Isa”?



Desde muito cedo ensinaram-me que os seres vivos nascem, reproduzem (só mais tarde aprendi que nem todos) e morrem, porém ninguém me ensinou como lidar com a morte.

Existe um “mito” que nos tenta fazer acreditar que os velhos estão preparados para morrer, mas eu ainda quero e preciso perceber o que fazer com o amor. O meu amor não envelheceu nem mesmo as zangas, porque não havia lençol novo ou porque não houve cuidado para manter o chão limpo, fizessem com que o amor diminuísse.

Às vezes, quando a saudade aperta idealizo os dias de beijos e abraços, sem espaço para a saudade, mas e quando a pessoa já não está? Quando já não existe?...

Dizem que existe um lugar bem melhor para os mortos e eu quero acreditar nisso, mas isso não diminui a dor que senti e que ainda sinto.
Ainda tenho muitas perguntas... Precisava de saber mais sobre um tal chá…

Paula Ribeiro

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Escravos do Sistema- Part II

Cresceram a lutar e a defender-se um ao outro, mas as coisas nunca deram sinal de melhoras. Nos seus vinte e poucos anos de vida já não era possível contar as dificuldades que tinham passado. Já tinham tentado de tudo, ou melhor quase tudo para melhorar de vida. Os seus trabalhos foram quase sempre em condições precárias e às vezes nem dava para pagar as contas. Chegaram a trabalhar apenas em troca de uma refeição. Tentaram por várias vezes criar um negócio próprio, mas nunca foram bem-sucedidos e as coisas tornaram-se mais difíceis depois da passagem de ambos pela cadeia, e no caso de Juan já algumas vezes.
Os pais emigraram quando Javier tinha apenas oito e deixaram-no ao cuidado do Juan, apenas três anos mais velho. No início ainda os pais davam notícias e mandavam um dinheirinho no fim do mês, e se por uma ou outra vez o dinheiro demorasse a chegar, haveria sempre um tio, uma vizinha, ou até mesmo as pessoas da igreja que ajudavam de alguma forma. Com o passar do tempo o dinheiro demorava cada vez mais a chegar e as ajudas tornaram-se mais escassas até que um dia já não havia nem o dinheiro nem as ajudas. Juan viu- se obrigado a desistir da escola para ajudar o irmão mais novo e para pagar as contas e, ou, dívidas. O seu maior objectivo era que o irmão continuasse a estudar, pois sabia que era preciso “o papel”, pelo menos um diploma, para se ser alguém. Porém, o irmão mais novo também acabou por desistir da escola.
O Javier já tinha notado algumas incoerências nas histórias que o estrangeiro contava. Mas não estava muito interessado em as apontar, a não ser para o irmão, afinal a única que se consegue ao apontar um desonesto é ir parar a cadeia. Entretanto, o Juan mesmo concordando com o irmão mais novo estava tão desanimando e sem saída que convenceu o irmão que única solução que tinham era aceitar a proposta do estrangeiro, que resolverem chamar de Sr. Múltiplas por parecer que tinha múltiplas identidades e já que era quase certo que Smith não era o seu nome. O Sr. Múltiplas dissera que os iria ajudar a melhorar de vida, só que tinham que ir para um outro lugar. Juan estava convencido que tinham a vantagem de perceber que ele não muito coerente e que ele o irmão estariam sempre juntos, em todo o caso, dois contra um.
To be continued...

Paula Ribeiro