segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Linhas de apoio e de orientação


Algumas pessoas, se calhar, não sabem bem o que é ter outros como as suas linhas de apoio e de orientação. Porém, acredito que todas as pessoas, ou pelos menos a maioria, chegam a procurar estas linhas. Felizmente, há pessoas que nem precisam procurá-las, pelo menos, não numa primeira etapa da vida. Isto é, muitos filhos ao nascerem já encontram estas linhas, que quando novos interpretem como um porto seguro, definidas e solidas. Deve ser por isso que as crianças costumam chorar sempre que vêem os pais a sair de perto delas. Será? O facto é que muitos filhos têm os pais como o seu porto seguro, não só pela questão de sustento, mas também pela questão, por exemplo, da estabilidade emocional. Depois de crescidos, os filhos procuram outros abrigos. O porto seguro, se calhar já não é suficiente, no entanto, precisam sempre de uma linha de apoio e orientação para chegarem a um novo porto seguro, e os pais que outra hora foram o porto seguro passam a ser linha de orientação e de apoio mesmo depois da chegada ao novo porto seguro.


Paula Ribeiro

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dona Joaquina


É tão bom ver a Dona Joaquina vestida no que, provavelmente, será um dos seus melhores fatos, sentada na tasca do Sr. António.
D. Joaquina não costuma ir chatear o pessoal do hospital na tentativa de marcar uma consulta, mesmo depois de o médico lhe ter prescrito os medicamentos necessários há dois dias, tudo isto, talvez, só para ter com quem conversar. Bom, se calhar D. Joaquina chateou as pessoas que queriam apanhar o mesmo autocarro. Afinal de contas, hoje em dia, já não consegue subir o autocarro com a mesma facilidade que conseguia há 60 anos, quando tinha apenas 20 anos e estava no auge da sua juventude.
O problema é que ela envelheceu e conseguiu chegar aos 80. Conseguiu educar filhos praticamente sozinha, porque o marido era emigrante e hoje até já tem netos.
Engraçado, ela conseguiu o que praticamente todos desejam. Ter a oportunidade de ver os filhos encaminhados na vida e brincar com os netos (pelo menos alguns). Ou seja, chegar, pelo menos, perto dos 80. Mas temos um problema, ninguém está pra aturar os velhos, porque estão sempre onde não deveriam estar, estão na nossa sociedade.


Paula Ribeiro

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Afinal, os cabo-verdianos são africanos!?


Parece que, agora, “ser africano” é a nova tendência até para os próprios africanos.
Se calhar para ser quem se é nem é preciso que haja uma tendência / ou uma corrente. No entanto, ao que parece alguns cabo-verdianos “hipocritamente” só agora descobriram que afinal ser africano é fixe e que continuar a ser explorado (“escravo”) pelos europeus é ser estúpido.
Acho que a escravatura é um assunto sério e pessoalmente não acredito que haja um ser “normal”, seja um branco ou um preto, um asiático ou um americano, do pólo norte ou do pólo sul que se orgulha da escravatura seja ela da escravatura da Roma antiga, escravatura em África ou de outra escravatura qualquer. No entanto, não é preciso viver muito para se perceber que o facto de não se orgulhar do passado não significa que este pode ser apagado ou mudado. Por isso, por mais que se escrevam novas histórias, o povo cabo-verdiano continuará a ser um povo ou um país que resultou da escravatura (“filhos da escrava que foi violada pelo seu dono”, conforme me disse alguém), a não ser que história esteja mal contada.
Em relação a ser africano acho que um cabo-verdiano não precisa “encontrar semelhança” com seichelense ou um marroquino nem “abandonar a mania que o português é sua língua“ (coisas que tenho ouvido) para se dar conta que é africano.
Acho que a confusão reside numa palavra primitiva “valorização”. Ser cabo-verdiano não deveria, não deve e nunca deverá ter que ver com ser mais (melhor) do que “os africanos da costa ocidental”, considerados todos “mandjacos”, ou pior do que os europeus…
Faz todo sentido cada um conhecer a sua história e valorizar a sua cultura, no entanto, pelo que me foi ensinado, ninguém consegue valorizar-se se não respeitar os outros. Se não respeitar a diferença que se vê nos outros e aceitar a igualdade que existe entre todos nós.


Paula Ribeiro