terça-feira, 11 de julho de 2017

Escravos do Sistema III

Tudo lhes parecia diferente do que tinha sido dito. Supostamente foram para um país que tinha acabado de sofrer um grande desastre natural e que precisava de pessoas para ajudar na sua reconstrução, mas não havia sinal de desastre nem de caos. Nenhum deles percebia a língua local, mas ficaram com a sensação de que algures viram as pessoas em festa, mas foi-lhes dito que era uma homenagem às vítimas da catástrofe e agora chegaram a uma aldeia horrenda e degradada que ao parece foi construída em forma de um labirinto em cima das montanhas. Dedução engraçada, mas Juan não quis preocupar o irmão e mostrou-se entusiasmado. Do cimo da montanha dava para ver um sítio que parecia bem desenvolvido pelos números de aranha-céus que era possível ver. Mas uma coisa que dois irmãos sempre foram bons, embora o Juan muito mais, era orientação e ficaram com noção que era bastante longe. Por outro lado, a casa do Sr. Múltiplas era completamente diferente da realidade da aldeia, havia até um jacuzzi telecomandado mesmo à frente da cama. Os dois acreditaram que pelo menos poderiam ter uma vida digna ali.
No segundo dia fizeram umas visitas estranhas. De acordo com a boa orientação deles parecia que iam dar sempre ao mesmo lugar, mas alguma coisa mudava, a fachada talvez. Pagavam para entrar nos museus supostamente diferentes e com coisas que não faziam sentido nem mesmo para um museu. Não percebia a moeda local, mas sabiam que já estavam a gastar muito do pouco dinheiro que ainda tinha. Finalmente hora de comer. O Javier já estava a começar a ficar chateado de tanta fome e tanta visita sem sentido. Uma vez mais descontraídos sentados numa mesa que parecia ter areias nos frascos de temperos. Os dois não sabiam o que era e mesmo sem noção pediram ao Sr. Múltiplas para provar e como ambos estavam a rir por se acharem uns estúpidos depois de ambos pensarem que aquilo era areia. Onde já se viu areia junto do sal e azeite ou seja lá o que tinha os frascos. Entretanto já estava alguém atrás preparado para avançar só por ter achado que os dois irmãos tinham descoberto o Esquema e fizeram o Boss comer areia. Vamanos disse um dos irmãos.
-Vocês falam português? Explicaria, caso houvesse a oportunidade, que era para ser espanhol. Não falavam a língua local e por isso vagamente diziam palavras de outras línguas estrageiras que conheciam, mas não houve tempo para explicações. Um Senhor já muito velho, parecia ter pelo menos cem anos, não, certamente cento e cinquenta, começou a falar como se tivesse pressa em terminar antes que fosse interrompido. Não sabem como é tão ouvir alguém falar a minha língua. Desde que vim pra cá nunca mais falei a minha língua. O senhor que me trouxe até aqui percebia um pouco, mas morreu pouco tempo depois e fiquei sozinho, nunca mais consegui voltar. Sabem, perdi o meu passaporte e pedi um daqui. Fez uma ligeira pausa para respirar. Até me deram, tive que pagar muito dinheiro, mas no dia em deveria ter o levantado o meu filho precisou ir ao hospital, disse isso enquanto apontava com cabeça para o individuo que trazia consigo sentado numa cadeira de rodas. Depois gastei todo o dinheiro que me restava a tentar ver se me poderiam mandar ou algo assim, mas nada, e por isso nunca mais consegui voltar. Juan olhou para o jovem que estava na cadeira de rodas que o velho empurrava, tentou procurar alguma semelhança entre o jovem bem musculado e cheiroso que estava sentado na cadeira de rodas com a múmia-viva que falava à frente deles. Naquele momento percebeu que algo não batia certo. Aliás, que nada batia certo naquele lugar. A primeira intuição foi procurar o passaporte mas Javier segurou-lhe os braços antes que pudesse o fazer. O irmão mais novo já tinha percebido que era mesmo areia à mesa e também percebeu que homem armado só não avançou até eles porque o Sr. Múltiplas tinha feito um sinal disfarçadamente. Aproveitou a entrada do múmia-viva em cena para descobrir que nem ele nem o irmão tinham passaportes. Rezou que o irmão com fama de explosivo não desse por isso, por enquanto. Juan por seu lado confirmou com o toque do irmão que não valia a pena procurar, consciencializando que tinha à sua frente a maior luta que tinha enfrentado e que daquela vez perder a cabeça significaria por fim a vida de os dois.  

Paula Ribeiro